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São José dos Campos terá Sistema de Trauma pioneiro ligado ao HM

Foto: Charles de Moura/PMSJC

São José dos Campos caminha para ser a primeira cidade do país a criar um Sistema de Trauma, vinculado ao Hospital Municipal Dr. José de Carvalho Florence, mantido pela Prefeitura de São José dos Campos em parceria com a SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina).

Com apoio da SBAIT (Sociedade Brasileira de Atendimento Integral ao Traumatizado), o Sistema já começou a ser implantado e contará com a participação de vários parceiros, como Samu, Polícia Militar, Centro de Reabilitação Lucy Montoro, Hospital Regional, hospitais particulares, entre outros.

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A ideia de criação de um projeto piloto em São José dos Campos foi sugerido por dirigentes da SBAIT, a partir de um programa de reuniões virtuais iniciadas há 3 meses e que, a princípio, tinham por objetivo discutir protocolos de tratamento dos pacientes com covid-19, uma vez que, em muitos hospitais, os cirurgiões foram para a linha de frente dos prontos-socorros.

Com o número cada vez mais crescente destes participantes, as discussões passaram a abordar outros temas de interesse do cirurgião do trauma, como por exemplo, as oportunidades para reorganização e aprimoramento do sistema de trauma no Brasil.

A criação de centros de trauma com um padrão de qualidade na assistência aos pacientes que pudesse ser multiplicado pelo país foi um dos temas discutidos nas reuniões virtuais, que passaram a ser semanais.

Assim, num desses encontros foi sugerido que o Hospital Municipal, por ser um centro de referência para traumas na região e já possuir um bom arranjo de processos entre os ambientes pré-hospitalar e de reabilitação, poderia abrigar um projeto para implantação do sistema de trauma regional, por meio de um convênio técnico cientifico entre a Sociedade Brasileira e a Secretaria de Saúde.

Criação do comitê

Os trabalhos já foram iniciados antes mesmo da assinatura do convênio e como braço operacional local foi criado o comitê de trauma municipal ligado ao Departamento Hospitalar e de Emergências da Secretaria de Saúde.

O decreto municipal de criação do comitê já foi publicado e o grupo local está discutindo, durante reuniões quinzenais, os planos de ação para os próximos anos. Outro tema em discussão tem sido a acreditação dos Centros de Trauma e do Sistema de Trauma de São José dos Campos, que deverá ser o primeiro sistema a ser acreditado no país.

Primeiro passo

No ano passado, o Hospital Municipal criou a sala de trauma, um serviço de atendimento exclusivo, que teve como objetivo centralizar o atendimento primário destes pacientes em um único espaço, sob os cuidados de equipe especializada própria, formada por cirurgião do trauma, dois técnicos de enfermagem e 1 enfermeiro.

Com o novo fluxo e uma equipe exclusiva, focada para os casos de trauma, o atendimento se tornou mais rápido e resolutivo. Entre os casos considerados como trauma estão os atropelamentos, acidentes de trânsito com capotamento, quedas de moto, queda superior a duas vezes a altura do paciente, vítimas de ferimento por arma de fogo, idosos que apresentam fratura de fêmur ou traumatismo cranioencefálico, entre outros. Por dia, passam em média pela sala de trauma cerca de 25 pacientes.

A implantação da sala de trauma foi o ponto de partida para a criação do sistema. A ideia é ter uma rede de registro única integrada ao sistema pré-hospitalar e à reabilitação dos pacientes traumatizados, sempre com foco na recuperação mais rápida e efetiva.

O Hospital Municipal, inclusive, já começou a desenhar o espaço de um layout mais amplo para o novo centro, que começará a operar assim que o pronto socorro for transferido para o Hospital de Retaguarda com o fim da pandemia de covid-19.

Os acidentes de transportes e as quedas são os principais registros de óbitos por causa externa entre os residentes de São José dos Campos. De um total de 284 óbitos ocorridos em 2019, 67 (23,6%) foram ocasionados por acidentes de transportes e 66 por quedas (23,2%).

Outros eixos

Além das discussões para a criação do centro de trauma, o grupo alinhou debates paralelos baseados em outros 3 eixos: elaboração de um manual de criação de um sistema de trauma; ações políticas junto a deputados e senadores e participação no programa “Rodovias que Perdoam”.

Quanto ao manual orientador para criação de sistema de trauma, o grupo se propôs a escrever um documento que abranja toda a linha de cuidado do trauma, iniciando pela prevenção, o atendimento pré-hospitalar, o centro de trauma, o registro de dados, programa de qualidade, ensino, reabilitação e reinserção no mercado de trabalho e na sociedade.

Esse documento tem por objetivo facilitar o processo de implantação deste modelo de atendimento, entendendo que o centro isoladamente não atingirá suas metas se não for integrado a um sistema organizado.

Outra frente do grupo foi buscar legisladores preocupados com as dezenas de milhares de mortes por trauma que ocorrem todos os anos e passam como fatalidade pela sociedade para iniciar diálogos com senadores e deputados federais que se mostrarem sensíveis à causa.

Por meio de um de convite feito pelo Observatório Nacional de Segurança Viária, o grupo foi incluído em “células” com a finalidade de discutir critérios de projetos de segurança e socorro às vítimas nas futuras rodovias federais que serão concessionadas nos próximos leilões pelo Ministério da Infraestrutura.

Parceiros elogiam iniciativa da Prefeitura na implantação do sistema

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Atendimento Integral ao Traumatizado (SBAIT), Tercio de Campos, o projeto pioneiro é muito importante para a entidade, que encontrou as portas abertas em São José dos Campos.

“A SBAIT encontrou uma oportunidade enorme em São José dos Campos para desenvolver um projeto inicial que consiga colocar em prática a integralização do atendimento ao paciente traumatizado, unindo todas as pontas, desde a captação, do sistema de trauma, da reabilitação, até a própria certificação e acreditação do centro baseado em princípios de qualidade”, afirma.

Segundo ele, o acordo firmado com a Prefeitura de São José dos Campos possibilitará abrir frentes em outras cidades. “É muito triste um doente traumatizado porque em geral é um jovem com perspectiva enorme de vida pela frente, mas por causa de um acidente ou agressão ele pode morrer ou ter sequelas que o impossibilitam ter uma vida normal. Por isso a importância de projetos como esse, de tratar adequadamente esse jovem e até idosos”.

Maturidade profissional

Para Milton Steinmam, coordenador do grupo que discute a implantação do sistema, o trauma é resultado de um acidente que não era para ter acontecido, poderia ter sido evitado. “Só que, no Brasil, as pessoas se conformaram com essa situação, o trauma é tratado como uma coisa fortuita, mas não é. Cada morte por causa externa poderia ser evitada”, diz.

O tratamento para essa epidemia, segundo ele, é a criação de um sistema com objetivo comum de enfrentar o que ele classifica como uma ‘doença’. “É o maior número de mortes por causas externas na faixa etária de 1 a 41 anos, uma ‘doença’ que não respeita diferenças. Por isso, é fundamental medidas de prevenção, que devem ser viabilizadas por meio de campanhas educacionais no trânsito, discussões por estradas melhores, etc.”

Sobre a escolha de São José dos Campos para a implantação deste sistema, ele cita que aqui muitos profissionais têm clareza da importância do tema. “A cidade tem alto nível de maturidade profissional, isso é um diferencial, conta com profissionais comprometidos. São José dos Campos é o lugar do Brasil que mais se aproxima do primeiro mundo no atendimento ao trauma. O sucesso do programa vai ser replicado em outros lugares, é importante que as pessoas saibam que a cidade tem um bom sistema de saúde”, completa.

Ele também salienta a importância da participação de entidades privadas. “Quando se fala de sistema não podemos desconsiderar a saúde suplementar, por isso a importância dos hospitais privados. Isso ajudará a tirar a sobrecarga da rede pública”, finaliza.

Saúde suplementar

Para Rodrigo Camargo, coordenador do Centro de Trauma do Hospital Vivalle, que também faz parte do sistema, esse projeto pioneiro no Brasil é de extrema importância porque o paciente traumatizando necessita de atendimento muito rápido.

“Existem 3 picos de mortalidade no trauma, o primeiro é o grave, que o paciente morre na própria cena, o terceiro é o tardio, que o paciente vai morrer no hospital e o segundo pico é a primeira hora pós-trauma, que precisa ser muito rápida. É o que chamamos da ‘hora de ouro’: é muito importante o atendimento nessa primeira hora para ter chance de salvar esse paciente, para diminuir sequela, diminuir infecção e diminuir a morte no terceiro pico”.

Segundo ele, quando há a integração dos serviços é possível levar o doente com a lesão passível de tratamento para o local certo. “Todo esse mecanismo, esse xadrez, precisa de agilidade. E com a integração dos serviços, esse tabuleiro fica mais fácil de compor”, completa.

Ele também salientou que o grupo trabalha para que no Brasil se tenha apenas um número de emergência. “O correto seria ter um número único. Estamos trabalhando para que tenha uma central única, hoje em dia infelizmente ainda tem lugares em que vai uma viatura do SAMU e uma dos Bombeiros. A gente quer mudar isso, pois é desperdício de dinheiro público”.

Rodrigo Camargo destacou que em 2017 o Hospital Vivalle montou um centro de trauma para receber pacientes encaminhados diretamente da cena do acidente, pelo SAMU ou Corpo de Bombeiros. “É importante que se leve o paciente para o lugar certo o mais rápido possível. O SUS muitas vezes está sobrecarregado, o paciente do Vivalle desafoga o SUS. Estima-se que de 10 a 15% do volume de pacientes politraumatizados do SUS pode ir direto para o hospital particular. Então isso acaba sendo bom para todo mundo. Os recursos públicos serão canalizados para os pacientes que precisam do SUS”.

Por isso, ele vê com bons olhos a participação de entidades privadas nesse sistema. “Muitos pacientes têm planos de saúde, é justo que esses pacientes sejam atendidos pelos planos de saúde atrás de um hospital particular, para desafogar o SUS, para que sejam canalizados recursos aos pacientes que precisam do sistema público”.

“Como esse modelo funcionando bem, a ideia é implantá-lo em todo o país”, conclui Rodrigo.